terça-feira, 14 de julho de 2020 - 7:02
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Startup cria guia para ajudar MPEs a enfrentarem a crise

Gabriela Bertho, head de finanças da Cuidas

O material elaborado pela Cuidas enumera os pontos de vulnerabilidade dos pequenos negócios e traz dicas sobre gestão financeira

Inaldo Cristoni

A disponibilidade de recursos financeiros, o poder negociação e o modelo de administração são os três fatores para a vulnerabilidade das micro e pequenas empresas a situações de crise econômica, como a atual.
Os fatores que explicam esse cenário são abordados em um guia elaborado por Gabriela Bertho, especialista em finanças corporativas pela Unicamp e head de finanças da Cuidas, uma staturp da área de saúde, que iniciou suas atividades em 2018.
O trabalho traz também dicas sobre como manter a saúde financeira dos pequenos empreendimentos, que representam 99% das organizações empresariais ativas no mercado e geram mais da metade dos empregos formais, segundo o Sebrae.
Para realizar o estudo, Gabriela consultou a base de dados do Sebrae, conversou com pequenos empreendedores, leu artigos produzidos por fundos de investimentos e trocou ideias com profissionais de finanças corporativas.
A executiva baseou-se, também, na sua experiência profissional de dez anos em planejamento financeiro e controladoria. “Estou acostumada a traçar cenários e avaliar cortes de gastos. Portanto, boa parte do conteúdo foi produzido com base em experiências que tive ao longo da minha carreira e que deram certo”, diz.
O resultado de quase um mês de pesquisa revelou que muitos negócios de pequeno porte correm o risco de fechar as portas por dificuldade na gestão financeira.
Sobre a disponibilidade de recursos financeiros, Gabriela constata que a realidade é distinta para o porte das empresas. Além de acesso facilitado ao crédito, as grandes organizações dispõem de ativos que podem ser oferecidos como garantia das operações – mesmo que tenham alguma pendência financeira.
Às sociedades anônimas também são oferecidos instrumentos financeiros, como, por exemplo, a emissão de debêntures, que têm baixo custo e permitem captação de altos volumes. “Com isso, conseguem gerir melhor seu caixa e reduzir custo de capital, apresentando melhores indicadores econômicos”, aponta Gabriela.
As micro e pequenas empresas lidam com cenário diferente, a começar pelo tratamento dispensado pelas instituições financeiras. Segundo a especialista da Cuidas, o pequeno empreendedor normalmente é atendido pela área de varejo dos bancos, que oferecem taxas de empréstimos muito semelhante às aplicáveis ao segmento pessoa física. “As operações de crédito são caras e, muitas vezes, nocivas ao negócio”, constata.
Segundo ponto de vulnerabilidade apontado pelo estudo, o poder de negociação segue a mesma lógica do crédito. Ou seja, as micro e pequenas empresas não têm o poder de negociar a postergação de pagamentos e descontos com seus principais fornecedores de serviços – como as grandes. De acordo com Gabriela, isso acontece, muitas vezes, porque o fornecedor também é de pequeno porte e não tem condições de fazer concessões.
O modelo de administração é outro gargalo do pequeno negócio. Gabriela observa que é muito comum a mistura entre as finanças pessoais e empresariais. “Isso compromete a capacidade de aporte dos sócios que, somado ao alto custo do crédito, fazem com que a empresa precise financiar seu capital de giro apenas com as vendas”, diz.
Um aspecto que chama a atenção no modelo de administração é o perfil do empreendedor brasileiro. Estudo do Sebrae revela que, em 2015, 80% dos microempreendedores individuais tinham até o ensino médio ou técnico. Além disso, a renda per capita de 60% deles era de R$ 542,00 a R$ 1.252,00 (em valores de 2015).
Na avaliação de Gabriela, esses dados apontam para um perfil de pessoas que vêm aprendendo na prática, ou seja, que não tiveram a oportunidade e tempo para se dedicar aos estudos sobre empreendedorismo.
A indisponibilidade de recursos financeiros é uma decorrência, também, da falta de planejamento. Como exemplo, Gabriela cita o desequilíbrio entre o volume de estoque de matérias-primas e a capacidade de produção, ou entre o estoque de produtos acabados e a demanda por produto no mercado. “São questões de planejamento que comprometem a disponibilidade dos recursos financeiros”, ressalta.
O guia traz dicas para ajudar as empresas na gestão do fluxo de caixa e manter os pés no chão durante a crise. Todas já foram testadas e algumas delas podem ser aplicadas em qualquer situação. Confira abaixo:
1. Defina os pilares da sua empresa
Liste as diretrizes que irão sustentar a estratégia durante o período de crise e utilize-as para suas tomadas de decisão.
Dica: O que não pode faltar nesse documento: Pessoas, Finanças, Clientes, Vendas e Suprimentos
Essa atitude é um bom balizador para empresários, executivos e líderes na tomada de decisão, principalmente, para questões em que não há uma solução sem prejuízo para alguma parte envolvida.
2. Simule cenários
Defina as premissas para cada um deles estimando: queda nas vendas, tempo de home office, disponibilidade de caixa, necessidades de aporte ou empréstimos, entre outros fatores que afetam a empresa na crise.
Dica – Crie pelo menos três cenários: Otimista, Provável, Pessimista.
Para cada cenário, crie um plano de ação:
– Se a empresa tiver 10% de queda nas vendas, quais custos deverão ser reduzidos?
– Minha empresa está enquadrada em algum incentivo ou benefício previsto pelo governo?
– Como serão tratadas as novas posições previstas? E as reduções de quadro?
3. Reduza gastos
Manter a liquidez do caixa é fundamental para sobreviver durante a crise. O primeiro passo é analisar custos e despesas e separá-los em quatro grupos:
– Essenciais fixos: não podem ser reduzidos e não podem ser cancelados
– Não essenciais fixos: não podem ser reduzidos, mas podem ser cancelados
– Essenciais variáveis: podem ser reduzidos, mas não podem ser cancelados
– Não essenciais variáveis: podem ser reduzidos ou cancelados
– Nesse momento, esqueça as classificações de custos fixos, variáveis, diretos e indiretos. O importante é saber o quanto eles são essenciais para o negócio antes de tomar a decisão de redução, renegociação ou corte.
4. Outras dicas
Renegocie as dívidas atuais com bancos e credores: adeque prazo, taxas de juros e valor de parcelas para que caibam na nova realidade.
Pense bem antes de contrair novas dívidas: a maioria das empresas é tomadora de crédito e isso é saudável desde que o caixa não seja comprometido. Cuidado com a ilusão de fôlego que um empréstimo pode oferecer no curto prazo.
Faça o inventário: identifique ativos que possam ser vendidos. Analise seus ativos e identifique aqueles que não estão sendo utilizados e podem ser vendidos.
Cuide da manutenção preventiva de máquinas equipamentos e imóveis: é mais barato do que a manutenção corretiva.
Suspenda temporariamente novos investimentos: pode parecer óbvio, mas é bom reforçar que este não é o momento de investir.
Renegocie os aluguéis dos imóveis: os locadores também estão preocupados com a crise. O que eles não querem agora é um imóvel vazio.
Atenção às medidas anunciadas pelo governo: estão sendo discutidas muitas propostas para ajudar as empresas, tais como, postergação do pagamento de impostos e redução de jornada.
Ajude outras pessoas e empresas: sua empresa também tem uma função social. Quando possível, faça doações, cuide de seus colaboradores e da comunidade. Distribua conteúdos gratuitos.
Seja criativo: o que eu não ofereço aos meus clientes hoje e posso oferecer com baixo investimento?
Embora já tenham sido testadas, as dicas contidas no guia não são uma fórmula mágica, esclarece Gabriela. Significa que a eficicácia de sua aplicação dependerá não apenas das atitudes sugeridas, mas também da situação econômico-financeira da empresa antes da crise.
Uma empresa que não gera lucro operacional ou que não tem uma base de ativos extremamente depreciada, por exemplo, terá outros problemas mesmo aplicando as dicas sugeridas no guia, assinala Gabriela.
A situação financeira da empresa antes da crise também será deteminante para a suficiência das medidas propostas. Para as saudáveis que precisam driblar a queda nas vendas num momento difícil, elas bastam.
As que já vinham enfrentando dificuldades quando o cenário econômico estava favorável provavelmente terão que adotar outra estratégia para garantir a saúde financeira do negócio, como mudar a estrutura do trabalho, exemplifica Gabriela.
O guia foi a primeira experiência na elaboração de uma atividade que não faz parte do core business da Cuidas. Fundada em 2018, a startup conecta empresas com médicos de família para atendimentos no próprio local de trabalho.
Através de sua plataforma, oferece planos mensais de saúde com custos mais baixos para as empresas de pequeno e médio portes. Indagada sobre os motivos para a produção do guia, Gabriela disse que no início do isolamento social ficou evidente a preocupação dos clientes com o futuro.
Após um debate interno sobre o que fazer pela saúde das pessoas durante esse momento tão delicado, todas as equipes apresentaram ideias. Uma delas foi a de criar um material sobre a saúde financeira para os clientes da startup.

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