terça-feira, 14 de julho de 2020 - 6:05
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Qual o valor de um curso de um Doutorado ou um MBA?

O mercado privilegia os trabalhadores com maior nível de qualificação acadêmica

Na perspectiva da história, fala-se em A.C. (antes de Cristo) e D.C. (depois de Cristo, a base do calendário ocidental). Depois que o novo coronavírus (Covid-19) mudou o mundo, dos negócios às relações trabalhistas, pondo em xeque todos os parâmetros anteriores do trabalho de escritório, substituído pelo “home office” e avanços da Tecnologia da Informação, a crônica da economia também adotou as expressões A.C. (antes do Covid) e D.C. (depois do Covid).
O desemprego foi tal e a crueza dos cortes visando a sobrevivência empresarial fizeram, em muitos casos, os CEOs deixarem de lado as competências e o potencial de cada um, privilegiando a redução de custos. D.C. pode-se perceber que algumas decisões tomadas sem a devida consulta ao “Estado Maior”, os chefes superiores, foram equivocadas. Isso se verá.
No Caged de maio, com 331 mil baixas (entre admissões versus dispensas) nos empregos com carteira assinada, houve expressiva redução (63%) em relação aos 902,8 mil desligamentos líquidos de abril. Nos três primeiros meses da pandemia que atingiu o país na segunda quinzena de março (252,6 mil perdas de vagas), o Brasil já fechou 1,838 milhão de postos de trabalho. Para se ver o impacto do Covid, vale saber que no acumulado de 2020 o país fechou 1,144 milhão de postos. Até maio de 2019 tinham sido geradas 351 mil vagas com carteira. Em todo o ano de 2015 – quando o país teve recessão de 3,5% – foram fechadas 1,542 milhão de vagas. Em 2016, quando o PIB encolheu mais 3,3%, foram fechadas 1,321 milhão de vagas com carteira. Ou seja, três meses de Covid foram piores do que nas recessões de 2015 e 2016. Outro dado preocupante foi a queda de 4,35% no valor do salário médio inicial no mês passado, que desceu de R$ 1.810,08, em abril, para R$ 1.731,33, em maio.
A.C. o mercado de trabalho vinha privilegiando os trabalhadores com maior qualificação acadêmica. O mercado se sofisticou, sobretudo nas atividades de gerência ou chefia, onde o salário podia ser turbinado com cursos de pós-graduação ou doutorado. Mas o jeitinho brasileiro de valorizar a pós-graduação e o título de Doutor (fora da Medicina) vem pregando peças nos espertos.
A última vítima parece ter sido o ex-quase novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, escolhido na quinta-feira passada, 23 de junho, pelo presidente Jair Bolsonaro, para a vaga deixada por Abharam Weintraub. Decotetlli integra o MEC desde a breve gestão do colombiano Ricardo Velez Rodríguez, indicação do guru do governo Bolsonaro, filhos e seguidores, Olavo de Carvalho (no momento em baixa), também o responsável pela ida de Weintraub. Decotelli inicialmente dirigiu o Fundo Nacional de Educação e deve ainda explicações pela confusa licitação de R$ 3 bilhões para a compra de computadores para as escolas em sua gestão no FNDE. Uma escola municipal de Itabirito/MG receberia 30.030 laptops. Como só tinha 255 alunos, cada um seria contemplado com 117,6 equipamentos…
Desde agosto de 2019 o professor Decotelli dirigia a Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação, que cuida das bolsas de estudo e articulações com prefeituras e secretarias de Estado da educação para o estímulo ao desenvolvimento escolar de povos indígenas (expressão odiada por Weintraub), deficientes e as camadas mais carentes da população, sobretudo os afrodescententes. Em princípio, seria uma guinada de quase 180 graus em relação aos ditames de Weintraub. E Decotelli tinha o apoio velado do ministro da Economia, Paulo Guedes, com quem trabalhou na privatização do Ibmec, e dos ministros militares, por ter ministrado cursos na Escola de Comando da Marinha e na Escola Superior de Guerra.
Mas a falsidade de seu currículo – na semana passada a Universidade Nacional de Rosário (Argentina) disse que ele não tinha concluído a tese de doutorado, embora seu currículo Lattes (da Capes, vinculada ao MEC) assim o informasse; nesta segunda-feira, 29.06, foi a vez da Universidade de Wuppertal (Alemanha) negar que obtivera o título de pós-doutorado na instituição, como também constava no currículo – levou o governo a adiar a posse antes marcada para esta terça-feira e fazer uma checagem mais rigorosa no seu currículo. Ontem, disse que vai assumir o MEC, com menos títulos de doutor.
Quem deve estar rindo em seu refúgio na Virgínia (EUA) é Olavo de Carvalho. O guru está rompido com o presidente Bolsonaro, a quem mandou que enfiasse no devido lugar comenda militar que anunciara ter concedido ao ex-astrólogo e criador do curso on-line de filosofia (COF) que, aliás, parece valer mais que diplomas, MBAs ou PhDs para ingressar no governo.
Além de Velez e Weintraub, os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foram alunos on-line de Carvalho. Também frequentaram seus cursos a distância o assessor internacional da Presidência, Felipe Martins, que apesar de ter apenas 31 anos, exerce função de conselheiro, em termos de política internacional, semelhante ao que fazia o conselheiro Marco Aurélio Garcia, nos governos Lula e Dilma.
No MEC está outro discípulo de Olavo, o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim. Até 2019, era coordenador pedagógico da escola infantil Mundo do Balão Mágico, em Londrina (PR), e mantinha um blog com dicas sobre a educação infantil. Também foi aluna de Olavo a secretária de Educação Básica Ilona Becskeházy, que Olavo gostaria que substituísse Weintraub.
Outro quadro, desta vez no Ministério da Economia, é o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida. Era pesquisador do Ipea, mas pesou na escolha do economista formado pela UnB, o fato de ter sido aluno de Olavo há 14 anos: “Foi como encontrar a luz em meio às trevas”, relatou no Facebook. Em 2016, Olavo e Sachsida gravaram vídeo em que comentam temas como a “doutrinação ideológica” nas escolas e riscos da presença de muçulmanos na “onda migratória na Europa e no Brasil”.
Outros discípulos de Olavo de Carvalho, atraídos para a política foram eleitos deputados federais ligados à chapa de Bolsonaro. São as deputadas Bia Kicis (hoje no PRP-DF) e Carla Zambelli (PSL-SP), investigadas no inquérito das “fake news” e nas atitudes antidemocráticas contra o STF e o Congresso Nacional, os deputados Paulo Martins (PSC-PR) e Marcel van Hattem (Novo-RS), além da jornalista e deputada Joice Hasselmann, eleita pelo PSL-SP, que rompeu com Bolsonaro e filhos e denunciou as “fake news”, o uso de robôs com perfis falsos para fazer difamações, e as articulações com empresários que financiam grupos radicais que pedem a intervenção das forças armadas.

Dilma e Witzel também declaram falso diplomas

Falsificar diplomas não é novidade. Uma das primeiras autoridades desmascaradas foi a então ministra da Casa Civil do segundo governo Lula. Dilma Roussef informara em seu currículo ter mestrado e doutorado da Universidade de Campinas. Mas a Unicamp informou que a futura presidente da República fora aluna dos programas de mestrado e doutorado mas não concluiu a elaboração e a defesa de teses para obter os títulos de mestre e doutor.
Outro caso rumoroso foi o do ex-juiz Wilson Witzel, eleito governador do Rio de Janeiro pelo PSL-RJ e que depois rompeu com o presidente Jair Bolsonaro. Witzel declarou em seu currículo Lattes ter doutorado em Harvard, mas ele mal estudou um “período sanduíche” na universidade de Harvard, nos Estados Unidos, uma das mais reconhecidas do mundo, e não concluiu o curso.
Vale lembrar que os cursos MBAs e pós-graduação relevantes no Brasil estão cotados com mensalidades entre R$ 1.400 e R$ 3.500 mensais. Vale a pena investir, mas sem fraudes. Capes e outros órgãos podem não fiscalizar bem o que é feito com as bolsas para estudantes, mas a mentira sempre aparece.

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