domingo, 05 de julho de 2020 - 10:11
Início Colunas Cezar Motta E se Trump perder as eleições?

E se Trump perder as eleições?

Todo o conhecimento e qualidade da diplomacia brasileira foram abandonados em favor de um chanceler absurdo e de uma política externa que nos põem como uma colônia norte-americana

O Itamaraty sempre foi reconhecido como área de excelência da administração pública, com um quadro profissional capaz de resolver grandes crises internacionais, embora tenha sempre servido a governos com orientações diferentes. É notório que sempre houve uma divisão ideológica entre os diplomatas, mas a balança do poder na pasta seguia seu curso sem que houvesse incêndios, e com os problemas externos sempre tratados com grande habilidade.

Foi José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, quem iniciou a qualificação do Itamaraty, depois da proclamação da República, e estabeleceu as bases da moderna diplomacia brasileira. Antes, do primeiro presidente, o marechal Deodoro da Fonseca, ao quarto, Campos Sales, houve uma sucessão de 12 encarregados da política externa, até que Paranhos assumiu com Rodrigues Alves e ficou no cargo até 1910.

De 1962, do governo parlamentarista estabelecido com a renúncia de Jânio Quadros, ao golpe de 1964, alternaram-se liberais como Affonso Arinos de Mello Franco, e socialistas, como Hermes de Lima e San Tiago Dantas. Com o regime militar, iniciou-se um ciclo de conservadores, alinhados automaticamente aos Estados Unidos pela própria natureza dos governos. O primeiro chanceler de esquerda do ciclo foi Antônio Azeredo da Silveira, nomeado pelo general Ernesto Geisel em 1974. Ao contrário dos antecessores, Geisel era um nacionalista radical.

Depois da redemocratização, tornou-se comum a nomeação de ministros de fora da carreira diplomática, como o banqueiro Olavo Setúbal, o empresário e político Abreu Sodré, o ex-ministro do STF Francisco Rezek, o professor e empresário Celso Lafer, e políticos como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Aloysio Nunes Ferreira. O quadro mudou com a posse de Jair Bolsonaro como presidente.

O novo chanceler, Ernesto Araújo, nos levou de volta à Guerra Fria e, na linha do chefe, estabeleceu crises idiotas com parceiros comerciais importantes, como a China e a Argentina. Bolsonaro assumiu com uma desastrada “diplomacia presidencial”, tornando-se um ridículo satélite de Donald Trump e com um discurso dos tempos do macartismo norte-americano nos anos 50, que tanto mal causou ao país. Araújo incorporou tudo isso.

A Argentina é um irmão siamês do Brasil, dependemos um do outro, e não vai ser a tola pinimba ideológica de dois presidentes abaixo de medíocres que irá mudar isso. É o terceiro maior importador de nossos produtos e tem também laços culturais importantes com nosso país. Quanto à China, é simplesmente o país responsável por mais de 85% do saldo comercial brasileiro, investidor fundamental e parceiro em várias áreas.

Rivalidades regionais

O Brasil enfrentou grandes crises com a Argentina no século XIX, por fronteiras e rivalidades regionais. O lado brasileiro da fronteira é coalhado de quartéis, para conter possíveis invasões dos hermanos. As indústrias eram proibidas ali, porque poderiam ser alvos fáceis para invasões terrestres. Também nos anos 70, por causa da construção da usina hidrelétrica de Itaipu, houve fricções. A ditadura argentina considerava a usina uma bomba hidráulica que poderia inundar Buenos Aires. As diplomacias dos dois países sempre encontraram soluções para a pacificação.

O governo José Sarney criou o Mercosul com o uruguaio Júlio Sanguinetti e o argentino Raúl Alfonsín, houve um acordo de abandono das pesquisas nucleares para fins militares e tudo voltou ao normal, antes dos governos Bolsonaro e Fernandez.

Quanto aos Estados Unidos, desde a II Guerra Mundial é, talvez, o mais próximo aliado brasileiro. O Brasil é importante estrategicamente em uma área pouco relevante para eles, o quintal da América Latina.  Em 1952, foi assinado o Acordo Militar Brasil-EUA, em nome da defesa do hemisfério ocidental. Tempos de guerra fria, com um novo e poderoso inimigo depois das potências do eixo: a União Soviética. O Brasil receberia material bélico usado em troca de minerais estratégicos.

Esse acordo foi rompido unilateralmente pelo presidente Ernesto Geisel em 1977, em represália ao relatório do presidente norte-americano Jimmy Carter sobre tortura no Brasil. Carter tentou também impedir o acordo nuclear assinado por Geisel com a Alemanha, e que resultou na usina Angra I, em Angra dos Reis. Foi o momento mais tenso das relações entre os dois países no pós-guerra. Geisel não gostava dos EUA, e fez uma política externa independente. Apoiou sempre os movimentos de libertação das ex-colônias na África e deu um voto na ONU a favor da Palestina e considerando o sionismo uma forma de racismo.

Relação de subserviência aos EUA

Hoje, Bolsonaro criou uma relação de subserviência aos Estados Unidos, apoiando-se em uma identidade de pensamento e de truculência com o presidente Donald Trump, a quem chama de “amigo pessoal”. Embora não fale inglês – e nem Trump fale português, sequer espanhol. Nada disso trouxe ao Brasil qualquer benefício.

Os Estados Unidos continuam nossos grandes adversários em mercados de commodities, como soja, carne, algodão e outros.  Os EUA querem aumentar as importações que o Brasil faz de etanol fabricado à base de milho. O Brasil vem absorvendo toda a antipatia internacional que Trump desperta.  Vamos ainda pagar um preço caríssimo pelo nosso descaso com a questão ambiental, com cancelamento de investimentos de fundos internacionais de bilhões de dólares, formados por dinheiro de governos e de fundos de pensão de países ricos.

Todo o conhecimento e qualidade da diplomacia brasileira foram abandonados em favor de um chanceler absurdo e de uma política externa que nos põem como uma colônia norte-americana. A China é qualificada como “comunista” e disseminadora de vírus.  A grande questão é:  como ficaremos se Donald Trump perder as eleições, como tudo indica que vá acontecer? E a agroindústria brasileira, o agronegócio, que nos garante saldos comerciais e é o único setor importante em nossa pauta de exportações?

- Publicidade -

Últimas Notícias

Atento cria portal para suporte remoto a colaboradores em home office

Integrando ferramentas de RH e de TI, "Atento em Casa" já teve mais de 33 mil acessos em três meses Para aumentar as possibilidades de...

BRQ Digital Solutions faz parceria com o SAS para ampliar oferta de Analytics

Nova parceira oferta um conjunto de software estatístico para gerenciamento de dados, análise avançada, análise multivariada, inteligência comercial, investigação criminal e análise preditiva Para expandir...

BB anuncia financiamento de R$ 103 bilhões para safra 2020/2021

Valor é 11% superior ao volume aplicado na safra anterior. Do total, R$ 10,3 bilhões irão para o crédito agroindustrial e R$ 92,7 bilhões...

HMD Global anuncia novo Centro de Excelência na Finlândia

Iniciativa foca em P&D e busca dobrar o fornecimento de experiências móveis seguras e confiáveis para os consumidores A HMD Global anuncia hoje a aquisição...

Sebrae enumera dicas para facilitar acesso ao crédito

  Atualmente, há 177 linhas de financiamento disponíveis para ajudar pequenos negócios na crise Um levantamento do Sebrae revela que subiu para 177 o número de...

Sicoob grande ABC disponibiliza nova linha de crédito a cooperados

Cooperados podem tomar empréstimo com condições diferenciadas, com 90 dias para início de pagamento e 24 meses para pagar Como forma de cooperar neste momento...

Gartner prevê queda dos gastos com segurança da informação em 2020

Equipamentos como firewall e sistemas de detecção e prevenção de intrusões serão mais afetados pelos cortes Os investimentos em tecnologia e serviços de segurança da...

Financiamento de comércio é alvo de parceria entre Citi e IFC

O objetivo é ajudar empresas de mercados emergentes em dificuldades por causa do Covid-19 O Citi e a International Finance Corporation (IFC), do Grupo Banco...
- Publicidade -